Por Maria Eduarda Carvalho

Nos gloriosos tempos do disco bolachão e também dos CDs, as coletâneas de sucessos eram a grande homenagem a um artista. No cenário da cultura alternativa atual – que é principalmente digital – as reuniões de grandes hits continuam, mas agora nos tributos. Álbuns virtuais reúnem novos nomes da música nacional que com a potencialidade de seus novos arranjos ressignificam os grandes clássicos.

A iniciativa tem sido bem sucedida. Já entraram na roda grandes nomes da música brasileira, Caetano Veloso, Cazuza, Jards Macalé, ngela Rorô e a banda Raça Negra, um dos principais sucessos da empreitada. Apesar de andar sumido também chegou a vez do cearense Belchior ser homenageado com o tributo “Ainda Somos os Mesmos”, que traz versões do álbum “Alucinação” na íntegra e de bônus o EP “Entre o Sonho e o Som” com outros sucessos do rapaz latino americano.

A proposta de tal homenagem é principalmente reavivar a obra do artista. A relação entre o “velho” e o novo é para além de canções sob outra ótica, expandir seus significados, suas possibilidades e contar suas histórias de modo diferente. Ou pelo menos deveria ser. Desde a década de 70, quando seus primeiros discos foram lançados (incluindo “Alucinação” – 1976), Belchior já serviu de polêmica, de estudo e principalmente de inspiração para milhares de fãs com a força rasgada das suas composições, irônicas e recheadas de mensagens (nem sempre tão) subliminares a outros grandes artistas como Caetano Veloso e John Lennon.

Quando uma obra dessa magnitude é posta em análise, e consequentemente em homenagem, espera-se que sua aura seja preservada e mais, que seja o guia da obra. Acontece que aparentemente já não somos mais os mesmos. Somos agora uma porção de arranjos pesados, letras emboladas, ideias que – citando outro grande artista – não correspondem aos fatos, ou melhor melodias que não correspondem a canção.

Em “Fotografia 3×4”, interpretada pela banda mineira Transmissor, o mencionado recado a Caetano Veloso é esquecido e passamos a dizer a qualquer um que “o sol não é tão bonito pra quem vem”, esquecendo também a histórica lembrança a “Alegria, Alegria”. Mas ainda não é umas das piores experiências, aquela “Velha Roupa Colorida” na versão de Manoel Magalhães virou balada. Tá certo, precisamos todos rejuvenescer, mas a ironia é que não há mais ironia ao dizer que tudo já ficou para trás.

O tributo perdeu de Belchior o delírio da experiência com coisas reais. Aí você me diz que os tempos são outros, não há mais aquela sombra de ditadura (por mais que uns surpreendentemente a queiram de volta) fungando em nossos cangotes. Será que são? Ainda existe protesto em nossas canções e principalmente ainda existem motivos para entender Belchior e a densidade da sua obra.

Nem tudo são flores, mas elas ainda existem. Lucas Vasconcellos, que recentemente lançou seu álbum solo, “Falo de Coração,” mesmo com tom suave soube respeitar a rebeldia de “Como o Diabo Gosta”. Lucas e os meninos da banda Nevilton já são figurinha carimbada em tais homenagens e tem na sua história boas versões de Raça Negra, Secos e Molhados, Jards Macalé… Por falar em Nevilton, também foi feliz a versão de “Sujeito de Sorte”, um bom exemplo de como integrar a personalidade da banda à obra original sem perdas.

De todo modo ficou a homenagem. E os questionamentos que ela traz sobre essa nova cultura dos tributos. Qual é a relação proposta por esse tipo de projeto? A qualidade técnica dos artistas participantes é na maioria das vezes reconhecidamente boa, mas e a intimidade com a obra escolhida? São precisos outros vínculos, que não o sucesso individual do artista, para que ele seja adicionado a tal empreitada.

Se Belchior já estava sumido agora é que não volta mais (ou de repente, não só volta, como adora o trabalho, afinal, cada cabeça é um mundo).

Ouça aqui as músicas da coletânea.

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