Soldado de Jorge

Por Mariana Kaoos

Hoje o galo cantou logo cedo! A madrugada passou rápida e foi dando lugar a um azul bebê que, junto com o amarelo do Astro Rei, se transformou em cor vibrante e bonita. Submersa em sonhos, ouvi três batidas na minha porta. Com muito custo abri, esfregando a mão nos olhos, bocejando o tempo todo. Ao me dar conta de quem estava a minha frente, fiz uma expressão de espanto e me deixei cair para trás. Era Jorge, o guerreiro dos meus pensamentos.

Vestido com sua armadura mais bonita, ele sorriu e me apertou contra seu peito, alisando meus cabelos e me dando beijos no cangote. Após um longo abraço saudoso, Jorge, com aquela voz aguda e estridente, disse com um tom meio triste que hoje é o seu dia. Achou que a maioria tivesse esquecido e por isso estava cabisbaixo. Eu ri e ri e ri e ria. Como Jorge podia ser tolo e inocente vez em quando.

Ele ficou sem entender e, por fim, eu expliquei que já estava pensando nisso desde ontem a noite e o meu presente seria dado hoje pela manhã. Não era algo monumental, nem de grande valor financeiro, mas sim o que eu pude achar de mais bonito dentro de mim. Então escolhi três coisas, bem como os reis magos quando foram ver o menino Jesus. O primeiro dos presentes necessitou que eu me ajoelhasse e assim me pus. Por um longo período de tempo, fiz uma oração onde, acima de tudo, eu agradecia pelas bem aventuranças em minha vida. Jorge ficou doido e se encheu de alegria, porque quando os santos recebem orações, me parece que eles ficam mais fortes. Nesse momento seus músculos se contraíram dentro da armadura.

O segundo presente que eu dei foi o meu amor. Depois de muito pensar decidi que a ele, nobre guerreiro, esse sentimento pertencia. Retirei meu coração do peito e o entreguei em mãos. Meu coração, grande e vermelho, batia de maneira rápida e em descompasso quando Jorge o segurou. Nesse instante seus olhos marejaram de lágrimas e ele, muito grato, colocou o meu coração no seu peito esquerdo, bem ao lado do seu próprio. Viramos um só coração e nos juntamos no amor.

O terceiro e último presente foi, para mim, o mais importante. Infelizmente eu não pude dá-lo por inteiro, pois seria algo do qual eu não poderia viver sem. Do meio do meu estomago retirei uma parte da minha fé. Sim, ao contrário do que muitos pensam, a fé pode até tomar o corpo inteiro, mas é no estomago que ela fica guardada e protegida. A sua forma é lisa, parece fios que balançam pra lá e pra cá. Todos coloridos. Quanto mais se tem fé, mais cheios de cor eles ficam. Então eu peguei o azul, o rosa, o verde, amarelo e laranja, amarrei uns nos outros e entreguei a Jorge como a prova máxima da minha devoção.

Com um gesto muito nobre, Jorge se curvou em agradecimento. Disse que lá pelas Terras do Sem Fim, em Ilhéus, todos ficaram soltando fogos e que ele até gostou, mas todo ano era a mesma coisa. Contou de mais alguns presentes que tinha recebido e, meio que em segredo, o meu era o que ele tinha mais gostado até agora. Aí, num gesto surpreendente, ele me convidou para integrar o seu exército estelar. No início eu poderia ser a escritora da tropa. Mandaria cartas, convocaria guerreiros, escreveria mensagens de força e coragem para todos, contaria histórias antes de dormir. E, conforme o meu progresso eu poderia, quem sabe, lutar na linha de frente, junto com ele.

Não pensei duas vezes. Troquei de roupa num instante e disse que já estava pronta para partir. Com um assobio Jorge chamou o seu cavalo que, para minha surpresa, era alado. Subi na sua garupa, abracei o meu guerreiro com toda força e fomos em direção ao céu, galopando pelo vento, desviando das aves que apareciam no caminho. Aos poucos a terra foi se tornando menor e nós, invisíveis.

Agora estou aqui, sentada no seu acampamento, que fica bem próximo da lua. As outras pessoas que compõem a sua tropa são muito educadas e bonitas. Mulheres e homens que, em dado momento, também doaram o seu coração e fé ao guerreiro da luz e decidiram lutar com amor contra todas as adversidades da vida. Estou muito feliz, mas nessa loucura toda eu me dei conta de que esqueci de desligar o ventilador do quarto, de trancar o meu curso na faculdade e de avisar das boas novas para os meus pais. Tirando a parte do ventilador, acredito que eles irão entender e dizer aos outros com maior orgulho que eu, a filha deles, sou a mais nova guerreira de Jorge.

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