Sobre jornalistas e militantes nas ruas sob o golpe

Por Ernesto Marques*

Refletindo sobre as agressões a colegas jornalistas que cobriam as manifestações e antes de escrever para me posicionar a respeito, vi a repercussão entre companheiros de grupos de redes sociais vibrando com uma gravação de Chico Pinheiro, apresentador da Globo que estava na bancada do Jornal Nacional no dia da prisão de Lula.

Chico fala como um companheiro de posição política pessoal muito bem definida na crítica que faz à própria Globo. Em três minutos e meio, canta e pede a Ana Cañas que regrave Pesadelo, de Paulo César Pinheiro. “Você vem me agarra, alguém vem me solta/Você vai na marra, ela um dia volta/E se a força é tua, um dia é nossa”. E a minha companheirada, tão escaldada com a criminalização dos movimentos e das lutas sociais pela grande mídia, tão revoltada com o tratamento dado a Lula, vai ao delírio e compartilha com justa emoção.

Nos mesmos grupos vejo comentários irados contra a presença de equipes de reportagem deste ou daquele veículo e manifesta disposição pra ir às últimas consequências para impedir aqueles… de cobrirem os próximos atos. Mas a luta continua. E aí?

Não civilizamos o arcabouço legal das comunicações quando fomos governo e tivemos força política para isso. Por mais dolorosas que sejam as consequências do erro estratégico, não resolveremos a questão agora, com ovos, pedras e socos.

Mirar num trabalhador pretendendo acertar a empresa, se não for muita falta de mira política, é covardia. Ou é razoável partir, “de galera” pra cima de uma equipe de reportagem? Meses atrás vi Caco Barcelos, das melhores cabeças e corações que trabalham na emissora dos Marinho, tomar um carreiraço, enquanto lançavam sobre ele sua equipe até cones de sinalização. Eu mesmo, quando repórter da TV Bahia, passei por situações semelhantes.

Fosse julgado apenas pelos textos que lê no Bom Dia Brasil e no Jornal Nacional, Chico Pinheiro seria “inimigo”. Mas quando sua voz fala, no áudio vazado, o que ficou contido junto com as lágrimas, ao ler a notícia da prisão de Lula, ai “nos representa”, como comentou um companheiro petista. Mas é um só Chico, aquele Francisco de Assis Pinheiro.

A “presunção de inocência” deve ser levada em conta no julgamento sumário de militantes sob forte emoção na luta das ruas, quando se deparam com repórteres. Mas como pensar diferente não é crime, não cabe falar aqui em presunção de inocência – por isso as aspas acima -, nem em julgamento, muito menos sumário, e tampouco se pode sentenciar profissionais no exercício de sua atividade, ao constrangimento ou à violência de qualquer nível.

Não se pode inferir a adesão desses colegas de reportagem à opinião de seus patrões pelo fato de suas lágrimas serem invisíveis. Posso ter ódio de classe contra um banqueiro, mas não posso ter dúvida sobre a condição de trabalhador de um bancário. Por que pensar diferente em relação a um trabalhador da notícia?

A intolerância contra a presença de jornalistas na cobertura das manifestações pode ser explicada na mais rasa análise de discurso dos principais veículos da imprensa brasileira. Mas não pode ser justificada por essas razões. Há muito mais gente como Chico Pinheiro na imprensa do que se possa supor e cenas de agressões dificultam ainda mais a vida desses colegas nas redações e assessorias.

Por outro lado, dão discurso para as entidades empresariais do setor (Aner, ANJ, Abert), na “solidariedade” aos trabalhadores. Mais ou menos como os tubarões e os peixinhos na fábula de Brecht. Ao mesmo tempo, colocam os sindicatos de jornalistas e radialistas numa saia justa, diante da contradição entre a defesa corporativa e a posição política contra o golpe.

Há formas mais inteligentes para expressar oposição à manipulação que, no chamado jornalismo de guerra em moda, tortura os fatos. “Pegadinhas” com repórteres em entradas ao vivo e mesmo as manifestações programadas em frente à Globo, são mais efetivas e mais precisas no alvo. Tentar impedir, ameaçar ou agredir de alguma maneira, os trabalhadores da comunicação, confundindo-os com as empresas, é uma grande ajuda aos golpistas.

Mais efetivo, acredito, é promover debates sobre o papel dos jornalistas/comunicadores, e, sobretudo das grandes empresas de comunicação na configuração deste Brasil em crise. É fazer desse tipo de debate, para pequenas ou grandes plateias, como parte das atividades de resistência à prisão de Lula e em defesa da democracia.

É bater na porta das entidades representativas da comunicação e cobrar o bom debate, antes de ver consolidada a versão sobre posições autoritárias ou hostis associadas a qualquer ícone que sirva para representar a esquerda. Um militante anônimo, vestindo vermelho, com uma caixa de ovos numa mão e a outra arremessando contra o repórter que o fotografava já basta.

Se estes rápidos argumentos não forem suficientes para convencer quem acha mesmo que tem que ir pro pau com jornalistas, tento um último.

Espero que companheiros e companheiras não desperdicem seu tempo e energia oferecendo-se ao papel (melhor não adjetivar) de ilustrar o discurso que criminaliza a militância de esquerda ou simplesmente, não alinhada ao golpe. É emprestar sua imagem e de algum movimento para alimentar o discurso do ódio com imagens. É, quixotescamente, enfrentar um inimigo zilhões de vezes mais poderoso e com as armas dele. Esse heroísmo serve muito mais ao golpe do que à resistência.

*Radialista e jornalista profissional (Facom/Ufba), ex-sindicalista, militante do PT e atual vice-presidente da ABI

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