Quem tem um sonho não dança

Por Indiana BragaIndiana

Depois de um mês na capital paulista, a ‘selva de pedras’ repleta de opções em cultura e lazer, enfim saí para um evento cultural. Sábado, 26 de outubro, dia de Enem. Achei que seria um dia perfeito. Boa parte do público estaria realizando o Exame Nacional do Ensino Médio e a minha visita ao Museu da Língua Portuguesa, local da exposição, seria mais tranquila. Ledo engano.

Ao chegar deparei-me com uma fila gigantesca, o que, a princípio, me surpreendeu negativamente, dada a minha intenção inicial na escolha da data. Minutos depois mudei de ideia. E pude perceber o quão bom foi poder ver tanta gente visitando um local como aquele e interessada num evento daquela natureza.

Após quase uma hora de espera pude então adentrar ao Museu e ao mundo do ‘maior abandonado’, o poeta romântico e exagerado. Foi só então (lerda que sou) que me dei conta do tema da exposição: MOSTRA SUA CARA. A exposição fazia menção mais aos últimos acontecimentos, em forma de protestos, no Brasil do que ao próprio Cazuza.

Claro que o curador da exposição, Gringo Cardia, buscou fazer relação com a geração Cazuza e o inconformismo daquela época com a desta. No entanto, não nego que a minha maior intenção era conhecer um pouco mais daquele rapaz que tanto esteve presente em meus dias através da sua música.

Mas, voltemos à exposição. O primeiro ambiente do evento, um dos poucos que nos apresenta Cazuza de forma mais íntima, é uma sala de vídeo que ensina-nos um pouco sobre gêneros literários e musicais e nos mostra as influências do artista nestas duas vertentes: a música e a literatura.

Após isso, passamos por um corredor com um painel de led que reflete um labirinto luminoso e possui um fundo musical com as canções do artista, em seguida adentramos numa sala composta por seis televisores, cada um transmitindo momentos históricos no país, por meio de vídeos, que começam em 1963 até os dias atuais.

[Título da Pauta]

Os vídeos retratam, de forma cronológica, a esperança do povo brasileiro na reforma agrária; os atos institucionais criados na ditadura; a violência, prisão e exílio vivenciados por diversos artistas da música e literatura; a morte do jornalista Vladimir Herzog; o nascimento do ‘novo jornalismo’ representado pelo Pasquim; os protestos e manifestos em forma de música, apresentados por grandes nomes no cenário nacional da época, como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana e Titãs; o massacre do Eldorado dos Carajás; a primeira parada do orgulho LGBT, a primeira vitória de Lula em 2002, entre outros. E cada período apresenta uma foto de Cazuza na fase correspondente de sua vida.

Enfim cheguei ao ambiente que mais atendeu as minhas expectativas: uma sala de vídeo com depoimentos de amigos, familiares, compositores, críticos musicais e estudiosos sobre o Cazuza artista e o ser humano. Marina Lima o descreveu como inconformado, mas, romântico, já Ney Matogrosso o definiu em três palavras: rebelde, consciente e insatisfeito. Jornalistas e antropólogos fizeram relações entre a juventude desta e daquela época e falaram também sobre governos. Mas, apesar de todo interesse que esta sala específica despertou em mim, não me senti confortável.

A sala era pequena, os depoimentos enormes, não só na extensão, mas na quantidade de depoentes, o que pode até ter sido necessário, pela expressão do artista em questão e o interesse que ele desperta, no entanto, como o fluxo de pessoas na exposição era muito grande, foi praticamente impossível permanecer por muito tempo num mesmo ambiente. Mesmo com a minha insatisfação, penso em voltar à exposição, exclusivamente para estar nesta sala e poder ver os depoimentos que não consegui naquele dia.

[Título da Pauta]

Não vou negar que depois de deixar esta sala, já estava me desligando da exposição, mesmo tendo outras salas a visitar, e, por isso, não me entreguei tanto. Passei por uma sala de karaokê, mas só de passagem mesmo, fui ao banheiro só pra registrar uns vídeos projetados nas paredes (que eu sabia que existia, por já ter visto na minha pesquisa anterior à visita) e por fim, passei por um corredor que evidenciava alguns objetos pessoais do cantor, inclusive bilhetes escritos por ele, além de faixas com frases de protestos, como as que costumam aparecer em manifestações populares.

Apesar da minha análise, espero não ter desestimulado os que têm interesse em visitar a exposição. Ao contrário, recomendo. Tanto que revelei a minha intenção em retornar. Apesar de minhas expectativas não terem sido superadas, respeito e valorizo a intenção do autor. Resta a mim, e aos que se interessam pelo tema, buscar outras formas de conhecer Cazuza mais profundamente.

A exposição acontecerá até o dia 23 de fevereiro de 2014, e a entrada custa R$ 6 (inteira) – às terças e sábados a entrada é gratuita.

CAZUZA MOSTRA SUA CARA
Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro – São Paulo-SP.
Funcionamento: de quarta a domingo, das 10 às 17 horas; nas terças, das 10 às 21 horas.

(Fotos de Diogo Moreira / Gov.SP)

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