Por Mariana Kaoos

“Da união entre Obatalá, o céu, e Odudua, a terra, nasceram Aganjú, a terra firme, e Iemanjá, as águas. Desposando seu irmão Aganjú, Iemanjá deu a luz a Orungã. Orungã nutriu pela mãe incestuoso amor. Um dia aproveitando a ausência do pai, Orungã raptou e violentou Iemanjá. Aflita e entregue a total desespero, Iemanjá desprendeu-se dos braços do filho e fugiu. Perseguiu-a Orungã. Quando ele estava prestes a apanhá-la, Iemanjá caiu desfalecida e cresceu-lhe desmesuradamente o corpo, como se suas formas se transformassem em vales, montes, serras. De seus seios enormes como duas montanhas nasceram dois rios, que adiante se reuniram numa só lagoa, originando adiante o mar”*.

1531672_10200616046322510_149609779_oPraia dos Pescadores. Rio Vermelho. Salvador. Bahia.

Às 21 horas do dia primeiro de fevereiro, todos os barcos já se encontravam rentes, prontos para, logo mais, levar oferendas a alto mar, precedendo o ritual religioso que dá significado ao dia de Iemanjá, rainha dos mares, guardiã dos pescadores.

Competindo com os carros que ainda circulavam pelo local, os vendedores das mais variadas especiarias já estavam a postos, brigando por clientes. Cerveja, flores, alfazema, colares, fitinhas da Bahia, churrasquinho, cachorro quente. Tudo era possível encontrar pelas ruas e passeios do Rio Vermelho. E não só. Demonstrando mais uma vez que a crença e a fé também viraram mercadorias, inúmeros “babalorixás” ofereciam passes de axé** por uma ajuda de custo que variava de dois a cinco reais.

Os espaços culturais do bairro já começavam desde então a exibir a sua vasta programação, paga em sua maioria, a fim de se mostrar como o lugar mais badalado e de melhor qualidade para se curtir a festa. As belezas do momento foram capturadas pelas câmeras e jogadas nas redes sociais, o que, de certa maneira, causou uma distancia entre ao ato simbólico de fé e grande parte dos presentes.

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O intuito da oferenda

Contrariando parte da lógica capitalista que permeia o dois de fevereiro, a casa de espaço cultural Lalá (ou antiga Casa Branca, como ainda é conhecida) apresentou ao público a verdadeira essência do que pode ser chamado de saudação a Iemanjá. Todos os artistas que se apresentaram no dia primeiro, bem como no dia dois, doaram seu trabalho em prol da festa e, com isso, transformaram os dois dias em atos de crença, diversão e qualidade.

Na rua, curtindo o som de Ed Brass (DJ que abriu a programação do dia 1º, no Lalá), o cantor e também parte do público, Russo Passapusso, afirmou que mesmo com a explosão capitalista nesses lugares, a festa ainda é do povo.  “Essa reação do capitalismo, de como a festa está sendo vista, o lance do território, do que está sendo ocupado. Isso tudo, em relação a festa de largo, não tem como controlar. O capitalismo gera mercado informal, que é o cara que tem a permissão pra colocar barraquinha ali e vender. Então não tem como dominar. A minha visão é sempre assim. Essa festa lida com religião, com sincretismo. É um ‘monstro’ que você não segura e que se transforma a cada tempo”, comentou.

Russo ainda afirmou carregar consigo uma crença muito grande em Iemanjá, e exibir enorme respeito pela festa, assim como o performer Ricardo Alvarenga, que esteve no Lalá, para desfrutar da programação. Ricardo, que em 2013 veio à festa de Iemanjá com uma performance de Jesus Cristo, disse que o espaço abriga toda e qualquer manifestação artística que possua seriedade. “Na madrugada do ano passado, quando Jesus esteve no dois de fevereiro, junto com Nossa Senhora Aparecida (interpretada por Michele Matiuzzi), a vivência foi muito intensa, grandiosa, essa mistura de Jesus com Iemanjá. O encontro gerou energia e movimento, gente fotografando, enfim, inúmeras expressões artísticas. Salvador possui essa festa sagrada e profana, transita entre o que é real e o que é imagem, o que é vendável. Então tudo cabe. Posso dizer que essa festa é o meu aconchego na Bahia, fala da minha chegada, da minha relação com o mar”.

Além da classe artística soteropolitana estar presente como apoiadora e fomentadora do espaço Lalá, ela também compôs a grade de programação. Paula Carneiro comandou as projeções da noite que, segundo ela, foram feitas a partir de imagens suas, bem como com contribuições artísticas. “Nós divulgamos nas redes sociais o trabalho e com isso, abrimos espaço para que as pessoas enviassem imagens e trabalhos próprios. Hoje, estou projetando essas imagens. Além de mim, contaremos com as projeções de Max, artista daqui de salvador”, contou.

A noite também contou com a apresentação da cantora Lívia Mattos, que fez o público dançar com os acordes ecoados através da sua sanfona. Lívia, que teve uma formação circense, diz da importância de levar todos esses elementos ao palco. “Quando eu aprendi a ser artista de picadeiro havia uma preocupação não só com o figurino e o cenário, mas com as coisas que envolvem o circo, como o próprio risco que você leva também para a música. No circo existe uma comunicação muito direta, de olho no olho. Você pode se comunicar com dez pessoas ao mesmo tempo ou apenas com uma, e isso é incrível. Então eu acabo trazendo essas composições para o palco”.

Além de Lívia e do DJ Ed Brass, outros artistas compuseram a noite do dia primeiro: Letieres Leite, Iara Rennó, Kiko Dinucci, Banco Cumatê, Coletivo Xaréu e Odoya Live P.A.

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“Dia dois de fevereiro, dia de festa de mar”

O dia de Iemanjá começou logo cedo, junto com a alvorada. Nas praias, podia-se notar a areia inundada de rosas das mais variadas cores. Um mar de gente tomou todas as ruas do bairro. A dificuldade de transitar era enorme. Apesar de postos policiais terem sido instalados em pontos estratégicos, eles foram insuficientes se comparado ao numero de pessoas transitando pelos espaços. A novidade desse ano foi a implantação de uma “portinha de entrada” no início da Rua da Paciência. Para ter acesso ao bairro que comporta a festa, só passando por ela, que era ocupada também por seguranças. Seria essa “porta” uma tentativa de nivelar as pessoas que entram?

Ao longo do dia, a programação gratuita mais democrática continuou sendo a do Lalá. De acordo com o produtor Luiz Ricardo Dantas, essa é a terceira edição da festa Oferendas que sempre foi projetada para o público e para o mar. Justamente por isso é que as apresentações ocorrem na varanda.

Ao meio dia, o Bloco De Hoje a Oito ocupou o espaço frontal do Lalá, exibindo seu som estridente com instrumentos percussivos. Com o sol a pino, o que se podia observar era o cuidado com a hidratação e o uso do protetor solar. Muitos óculos escuros, turbantes, barrigas de fora. Em todas as mãos, o vermelho da nova lata da cerveja Schin refletia o azul do céu. Alguns vendedores contrariaram a ordem de exclusividade da marca, e, de maneira informal, passaram a vender Skol. Na tarde quente do dois de fevereiro, possuir uma Skol, era quase a mesma coisa que possuir um tesouro valioso.

As horas se seguiram com som para todos os gostos. Nas barracas de cerveja, havia os amantes do pagode. Mais ao lado, quem mandava ver era o grupo Ministério Público e o seu ragga estridente. Também ouvia-se o reggae e a saudação à Bob Marley. No Lalá, além do Bloco De Hoje a Oito, as pick ups foram comandadas pelo Sistema Kalakuta, Samuca Amaral, Duo Contacts e a dupla 4:20 (composta por DJ Riffs e DJ Munch). Todos eles agitaram o público com afrosambas, dub, samba de raiz, ragga e músicas genuinamente brasileiras. A qualidade dos artistas convidados foi tão grande que, quem chegou ao Lalá ao meio dia, não tirou os pés de lá até que tudo se acabasse.

Ao fim da tarde, já no pôr-do-sol, quem comandou a festa foi o DJ paulistano Tutu Moraes. Tutu, que é produtor da famosa Festa do Santo Forte, em São Paulo, levou um pouco dessa mistura para sua apresentação na festa Oferendas e explicou um pouco da sua relação com o dia dois de fevereiro. “Eu sou filho de santo, filho de Iemanjá. Então o dia de hoje é muito especial para mim, para a minha vida e para a minha pesquisa musical. Eu fiquei bastante emocionado em tocar aqui, pelo ponto de vista espiritual, afetivo e por toda tradição”. Além da escolha musical para o dia, o DJ também caprichou no figurino. “Isso que eu estou usando é um cafta, uma bata moura. Ela é muito comum na África e em lugares do Oriente Médio. Essa de hoje é uma homenagem a minha Iemanjá”, comentou.

Logo após a apresentação de Tutu, como uma das mais belas oferendas, a “sereia” Mariella Santiago subiu à varanda e fez todos sorrirem quando, da sua boca, a notas dissonantes de sua voz saíram, como forma de benção.  O público chegou ainda mais perto do palco e começou a sambar junto com ela. A palavra de ordem da noite foi a saudação “Odoyá”, destinada a Iemanjá.

Mariella comandou a noite com muita leveza, acompanhada de artistas convidados como Marcela Bellas, Kiko Dinucci e Karina Buhr. Todos, da sua maneira, deram seu recado e honraram com a maior delicadeza possível o dia de Iemanjá. Karina, afirmou o quanto isso tudo a envolve espiritualmente. “Toda essa questão do dia dois de fevereiro, desse sincretismo religioso é muito forte em minha vida. Acredito que no Brasil todo. E aqui em Salvador, o diferencial é que é aberto, exposto. A beleza está justamente aí”, destacou.

“Que a festa de Iemanjá não se transforme em apenas uma máquina de cerveja”***

Ao fim da noite do dia dois de fevereiro, todos os espaços da Rua da Paciência foram tomados por lixo. Ao chão, amontoados de latinhas Nova Schin, bitucas de cigarro, plástico e restos de comida. Os banheiros químicos, insuficientes para o contingente de pessoas que a festa abrigava, exalavam fedor e sujeira. O mijo transbordava e seguia reto seu percurso, molhando os pés dos transeuntes que naquele dia, resolveram curtir a festa com sandálias de dedo.

Assim como será no carnaval, a cervejaria Schincariol foi a patrocinadora oficial do dois de fevereiro. O investimento milionário da empresa permitiu que apenas a sua marca circulasse nos pontos de venda, limitando o consumidor a uma não variedade e impedindo o direito da escolha. Ora, se a Schin possui exclusividade nas festas populares de Salvador, alegando com isso uma melhor qualidade ofertada, será que parte desse investimento não poderia ser direcionado à higienização dos locais e melhor comodidade ao povo? Se a marca fatura uma boa publicidade ocupando esse espaço, ela não poderá também ser responsabilizada pela sujeira e desconforto visual?

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“Vou cantando e vou tocando, que eu sei que ela vem do mar”.

O dia de Iemanjá de 2014 foi mais um momento de celebração a valores como fé, crença, resgate à cultura popular, amor, trabalho. Enquanto um lado da festa foi muito bonito, o de observar a fé nos olhos de inúmeros fiéis, o sorriso nos lábios do povo e a perseverança com que alguns produtores e músicos executaram seus trabalhos, o outro foi de descaso com a população, muita sujeira, brigas, furtos e hegemonia de um capitalismo, de uma venda exacerbada que transforma a festa não num espaço genuinamente baiano, de sincretismo religioso e crença, mas em uma desculpa para o consumo desenfreado dos mais variados produtos.

A cada ano que passa ambos os lados se confrontam com mais intensidade. Ainda há muitas pessoas a fim de conservar e lutar pela essência e significado do dia de Iemanjá, assim como também há muitas pessoas privatizando, lucrando em cima dela sem o menor cuidado e transformando-a numa festa como outra qualquer. Resta saber qual dos lados irá resplandecer.

*Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi

** Ritual do candomblé

***Frase proferida por Kiko Dinucci na sua apresentação, na festa Oferendas

Foto destaque: Agecom Gov. da Bahia / Fotos: Max Haack.

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