Por que não Amorais?

Por Bruna Couto Rocha*

Fruto de uma conturbação de sentimentos, questionamentos e reflexões, a série Amorais é o conjunto de oito obras de Arthur Campelo, pintor expressionista que encontrou na arte uma via possível para a experimentação da linguagem do corpo e da alma humanas. O título Amorais, além de fazer referência ao amor (matéria-prima original da obra), ancora-se na perspectiva freudiana acerca de como os instintos humanos escapam aos rótulos sociais. Rótulos estes que, embora estejam sempre sujeitos às modificações culturais cronológicas, geográficas e econômicas, permanecem intimamente vinculados à moral ocidental.

Esta moral, concebida na Grécia antiga através da força, sacralizada pela Igreja na Idade Média e racionalizada pelo Iluminismo na Idade Moderna, ainda vigora sob novas formas neste período que chamamos pós-modernidade. Ela está fragmentada, digitalizada, globalizada, mas continua subtraindo as infinitas particularidades de essência e existência da humanidade aos seus juízos de valor conservadores e monolíticos.

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A série Amorais nasce do questionamento radical desta concepção, iniciado por uma crise introspectiva do artista, seguida de uma tentativa de posicionamento público diferenciado com relação ao amor. Enquanto a sociedade persiste na separação entre amor e sexo, aqui o amor está representado fundido à atividade sexual; enquanto ela insiste no amor heterossexual, aqui, ele supera e ultrapassa quaisquer diferenças fisiológicas ou identitárias; enquanto predomina-se a perspectiva do amor monogâmigo, aqui ele se dissolve para além das fronteiras dos contratos sociais e escorre aos litros, sem direção pré-determinada.

No Expressionismo, a arte é o fruto da percepção sempre subjetiva e individualizada do observador acerca do real. O movimento expressionista se espalhou pelo mundo como um sopro de irreverência aos formatos obsoletos da Arte Clássica.

O amor flui, livremente, nas telas de Amorais. A escolha de cores terrosas é uma tentativa de aproximar a poética da arte à natureza primitiva do ser humano. O artista, que tem por referência artistas como Carybé, Picasso e Mondigliani, constrói uma pintura repletas de curvas, com pinceladas, cuja diversidade de forma e textura convivem em harmonia em suas opções de forma.

A dimensão superficial dos quadros (100×80 cm e uma de 150×200 cm) é pequena diante da profundidade que suas curvas transadas possibilitam ao olhar. A combinação resulta na expressão simultânea de uma eroticidade sutil e voraz.

Se o literato decodifica suas sensações e percepções através da palavra, o artista plástico o faz através das cores, formas e texturas. Trata-se, segundo o próprio artista, de “uma espécie de observação sentimental do corpo”, na qual o sentido das coisas dão lugar a uma percepção sensorial dos meandros da emotividade.

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A série Amorais convida o público à uma experiência estética onde os sentimentos e os instintos mais íntimos de cada pessoa pode transformar-se em uma nova perspectiva de vida e relacionamento social.

Provocarás! Libertarás! Amorais!

*De Salvador para o Conversa de Balcão.

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