rocha-que-voa

Conta Luiz Galvão, dos Novos Baianos, em seu livro*:

Rio de Janeiro. Início da década de 1980.

“Eu passava de táxi quando avistei Glauber andando pela calçada. Feliz, gritei: Glauber! Recebi dele um aceno que me fez mandar parar o táxi. Ele entrou pela porta traseira e sentou-se ao lado de Bola, o percussionista, e perguntou:

– Galvão, você vai pra onde?

– Pra Copacabana – respondi.

– Então, vou pegar a carona para irmos conversando.

Com outra pergunta conduziu a conversa:

– Por que você não se candidata a deputado federal? Você por Juazeiro e Moraes por Ituaçu. Você é um deputado, se nós não fizermos a lei, eles farão e vão nos prejudicar; além disso, eles, em sua maioria, são corruptos, e vão roubar o dinheiro do povo.

– Glauber, você é o meu presidente – eu disse.

Ele riu e me convenceu:

– Para que eu possa ser presidente, é preciso que vocês sejam os deputados.

Senti que Glauber acredita ser possível chegar à Presidência e não importava o partido, porque ele não me indicou nenhum. Depois, ele levou a conversa para outro canto e me perguntou por que eu não iria morar em Juazeiro e que ‘isso aqui’, referindo-se ao Rio de Janeiro, ‘já acabou, estamos pisando nas sombras das ruínas, eu vou morar em Vitória da Conquista‘. Disse-lhe que Juazeiro não me cabia, porque meu caminho era o mundo fora de casa.”

*Trecho do livro “Novos Baianos – a história do grupo que mudou a MPB”.

**Conquistense nascido no dia 14 de março de 1939, Glauber Rocha saiu de Vitória da Conquista antes de completar os dez anos de idade, quando a família mudou-se para Salvador. O cineasta morreu em 22 de agosto de 1981, antes de voltar para a terra natal.

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