Lula sairá ainda maior da prisão

por Vitor Luiz Menezes Gomes

Muito curioso quando atribuem a Lula um comportamento radical. Quando o chamam de comunista, então, torna-se ainda mais exótico o enunciado. Nada mais distante a ele, também, a figura do populista irresponsável. Este episódio da sua prisão é apenas mais um exemplo que comprova o equívoco dessa leitura.

Nos erros e acertos, o que Lula transparece é um profundo conhecimento da alma popular brasileira e uma gigante intuição política. Não é Deus, não é infalível, não é sequer tão poderoso quanto supõem seus detratores, mas é um dos últimos líderes mundiais de massa entre os gestados no século XX.

A grandeza de Lula está em ter mantido a rudeza de um trabalhador comum, mesmo tendo frequentado alguns dos maiores palácios do mundo. Isso permite que ele saiba exatamente que espécie de confusão pode estar passando pela cabeça do povo humilde nesse momento, e que espécie de sentimento ainda cala num canto angustiado do seu peito.

A cena de militantes pressionando as grades do portão do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, impedindo a saída do carro que levaria Lula até a custódia da polícia, é altamente simbólica: os militantes sabiam da militância, e estavam genuinamente convictos do que seriam capazes de fazer, mas o ex-presidente sabia do porteiro, do motorista de ônibus, do metalúrgico que ele já foi, daqueles e daquelas que formam a maioria que sequer se veem representados por sindicatos.

É possível que essa alma brasileira precise, em algum momento, ser sacudida por um processo revolucionário, por uma guerra civil, para que se posicione definitivamente acerca das mazelas seculares que o aprisionam e fazem desse país esse contraste agudo entre ilhas de riqueza em um oceano de desigualdade. Mas, com a responsabilidade histórica que adquiriu, não será Lula a liderar esse momento. Ele nunca se propôs a isso.

Quando deixou a Presidência da República, com 87% de aprovação popular, nem mesmo ousou fazer o que fizera o seu antecessor: forçar uma mudança de regras para conseguir mais um mandato. Jogou o jogo democrático e não utilizou a sua popularidade para se perpetuar no poder.

Não deu ouvidos a alguns dos aliados tresloucados que chegaram a aventar publicamente tal hipótese. Lula sabe que séculos de jugo forjaram na cultura brasileira um tipo específico de culto às figuras de autoridade, de respeito ao “doutor delegado”, “às autoridades civis e militares”, e que não haveria sustentação para o descumprimento da determinação de prisão expedida pelo juiz Sérgio Moro.

Restava o que restou: extrair da situação o máximo de força de mensagem, tanto verbal quanto imagética, não faltando nem mesmo outro fator muito caro ao brasileiro: o aspecto religioso. O último almoço com os familiares, a missa em memória de Dona Marisa, a condução pelos braços da militância — na foto que correu o mundo — guardam tantos paralelos com referências profundas de espiritualidade e de significação histórica que, certamente, ainda serão objeto de muitos estudos. Lula conseguirá sair ainda maior dessa prisão.

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