Lula é alvo de ataque da elite, diz Chomsky

Da Folha

Uma das maiores referências da esquerda no mundo, o linguista Noam Chomsky, 89, acredita que a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é injusta e uma vingança das classes dominantes, inconformadas com as reformas do governo petista.

Mas, em entrevista à Folha, ele afirma que a esquerda e o PT precisam passar por um profundo processo de autocrítica, para entender por que sucumbiram à corrupção e perderam a oportunidade de diversificar a economia durante a bonança das commodities. Ele também diz que, na Venezuela de hoje, a democracia foi reduzida marcadamente em sua substância.

Qual o significado da prisão de Lula?

Noam Chomsky – O rigor da punição, além da rejeição do pedido de habeas corpus, vai muito além do crime alegado, e essa punição só pode ser interpretada como parte de um ataque generalizado das classes privilegiadas contra tudo o que o governo Lula representou. Na realidade, Lula está sendo punido pelas políticas reformistas que deram um apoio muito necessário à massa da população que é reprimida. O fato de “essa gente” ter voz na determinação dos rumos do governo, em vez de ficar em seu lugar na base da pirâmide social, é ainda mais intolerável para as classes dominantes. O objetivo mais imediato é impedir Lula de se candidatar em uma eleição que ele certamente venceria, de acordo com pesquisas recentes

Qual é o impacto da prisão sobre a esquerda no Brasil?

Apesar de todas as falhas do governo Lula, que foram reais, suas políticas beneficiaram muita gente, dando sustentação econômica, oportunidade de educação, dignidade e uma sensação de que essas pessoas tinham um papel a desempenhar na vida do país. O silêncio imposto a Lula e o colapso do PT —em parte, há que se reconhecer, autoinfiligido— são um golpe duro contra as esperanças de o Brasil realizar seu potencial de chegar a um grau maior de justiça social e desenvolvimento econômico e cultural.

O assassinato brutal de Marielle Franco [vereadora do PSOL] é outro ataque amargo contra direitos humanos básicos e as aspirações das vítimas tradicionais da repressão e injustiça. As marretadas do governo reacionário de Temer contra a sociedade brasileira são um presságio de um futuro sombrio para a população do Brasil.

O que a esquerda brasileira deve fazer agora?

A esquerda deveria fazer uma autocrítica muito séria, examinar o que deu errado e pensar em todas as oportunidades que foram desperdiçadas porque sucumbiu à maldição da corrupção e a planejamentos falhos. A base social precisa ser reconstruída do zero, com participação direta de comunidades e instituições. Uma das principais tarefas é reverter as políticas atuais, que têm implicações nefastas para o futuro do Brasil. Uma esquerda revitalizada deveria propor programas que emergem da deliberação popular.

Qual é a imagem do Brasil no mundo hoje em dia?

As iniciativas de Lula, em coordenação com seu ministro das relações exteriores, o altamente eficiente Celso Amorim, transformaram o Brasil em um dos atores mais influentes e respeitados no mundo. O Brasil liderou um movimento para dar voz ao “mundo em desenvolvimento” na administração global, dando seguimento a esforços para criar uma nova ordem econômica internacional que havia sido massacrada pela coalizão de poder e dinheiro capitaneada pelos EUA.

Essas esperanças foram despedaçadas pela destruição —em parte autodestruição— do PT e a reversão de seus feitos. A imagem atual do Brasil é festejada pelas classes investidoras predadoras e os governos ligados a elas, mas entre aqueles que se preocupam com direitos humanos, justiça social e democracia, a decadência da imagem do Brasil é drástica.

O sr. acredita que existe uma tendência de combate à corrupção e responsabilização até dos políticos mais poderosos, ou uma politização da Justiça?

É correto lutar contra a praga da corrupção e insistir na responsabilização para todos, inclusive os políticos mais poderosos, mas isso precisa ser feito com honestidade e integridade. O processo foi manchado pelo “golpe light” contra Dilma Rousseff, uma das poucas figuras políticas não acusadas de corrupção, ao contrário de seus opositores mais estridentes.

O sr. considera a Venezuela uma democracia?

De acordo com observadores internacionais respeitados, como a fundação Carter, e levantamentos do Latinobarómetro, a Venezuela realizava eleições íntegras e tinha apoio popular durante os anos Chávez, mas a situação deteriorou severamente desde então e, apesar de o país se manter democrático na forma, na substância a democracia foi reduzida marcadamente. Infelizmente, a oposição oferece muito poucas respostas construtivas ou alternativas. As perspectivas são sombrias.

Em uma entrevista para o site Democracy Now em abril de 2017, o sr. afirma que “os governos de esquerda não aproveitaram a oportunidade que tinham para criar economias viáveis e sustentáveis. O que esses governos e o Brasil deveriam ter feito?

Eles deveriam ter usado as oportunidades para diversificar suas economias, em vez de continuar dependentes de exportação de bens primários, o que também minou a indústria doméstica. Essas sociedades estão bem posicionadas para criar economias sustentáveis, como foi feito em condições bem mais adversas no leste da Ásia, onde não há os recursos da América Latina e a segurança.

Eles deveriam ter resistido à tentação de adotar as práticas extremamente corruptas que têm sido um câncer matando uma sociedade que poderia estar prosperando e ter uma ordem social muito mais justa.

Na mesma entrevista, o sr. diz: “havia uma quantidade enorme de corrupção. É doloroso ver o PT, que implementou políticas importantes, mas não conseguiu ficar fora da corrupção. Eles se juntaram a uma elite extremamente corrupta, que rouba o tempo todo, e participaram na corrupção, o que os levou a ficarem desacreditados.” O sr. mantém a opinião?

Infelizmente, isso está cada vez mais claro, na medida em que surgem novas revelações. Mas as grandes conquistas de Lula e do partido continuam a ser fundamentalmente significativas.

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