Lula adotou método das greves para se entregar

Ricardo Kotscho 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reviveu nesta sexta-feira (6), no dia da prisão que não aconteceu no local e horário marcados pelo juiz Sérgio Moro, os momentos mais dramáticos das greves nos seus tempos de Sindicato dos Metalúrgicos e das assembleias no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

O dilema naquela época era continuar ou suspender a greve, calculando perdas e ganhos, com o sindicato ocupado dia e noite para esperar a invasão da polícia, anunciada a todo momento.

Agora, com o sindicato novamente ocupado e cercado por milhares de apoiadores, Lula tinha que decidir entre a rendição simples ou negociar os termos em que se daria a prisão pela Polícia Federal.

Decidiu dormir no sindicato de quinta para sexta e ficou até as 2h conversando com dirigentes partidários, advogados e velhos amigos, a “companheirada”.

Ao raiar do dia, já estava disposto a não ir para Curitiba e ficar no sindicato, até que outra solução fosse negociada. Pesavam na sua decisão os dois lados em jogo: o político e o jurídico.

Lula não queria se entregar como um preso qualquer para aparecer humilhado nos telejornais da noite e, ao mesmo tempo, calculava com os advogados as consequências jurídicas de não atender ao mandado de prisão de Moro.

Alternando reuniões com os advogados da sua defesa e dirigentes partidários, em salas separadas, o ex-presidente foi formando sua convicção, exatamente como fazia nos tempos de Vila Euclides, antes da fundação do PT.

De vez em quando, dava uma passada na sala em que estava reunida sua família e em outra onde ficavam os velhos amigos dos tempos de sindicato, ex-ministros de seus governos e intelectuais próximos do PT.

Queria ouvir a opinião de todos sobre o que fazer, exatamente como agia na Vila Euclides antes de uma assembleia.

No estádio, em vez de subir direto no palanque armado nos fundos, entrava pela frente e, no caminho, atravessando um mar de gente, ia ouvindo o que a “peãozada” lhe pedia. Assim montava o discurso que iria fazer.

Agia da mesma forma nos seus oito anos de presidente da República quando tinha que tomar alguma decisão importante. Equilibrar razão e emoção era sua receita e, por isso, sempre teve interlocutores variados nessas horas.

Entre os que ouviu na sala dos amigos, estavam duas freiras bem velhinhas equilibrando as bengalas, em seus hábitos impecáveis, com quem cochichou depois de longos e emocionados abraços.

Nunca se saberá quem teve mais peso na decisão final de permanecer em São Paulo –se as duas religiosas, os políticos, os amigos que vieram de várias partes do Brasil, os intelectuais ou os juristas consultados. Mais do que qualquer outro político brasileiro, Lula sempre deu importância aos símbolos, e soube lidar com eles. Três se tornaram permanentes: o sindicato, sua trajetória de vida do sertão ao Planalto e as caravanas.

A primeira delas, em 1993, reproduziu a viagem que fez num pau de arara de Garanhuns para São Paulo, longo trajeto percorrido de ônibus com dezenas de paradas, que durou 13 dias, o número do partido por ele criado.

Nessas viagens, que cruzaram o país de ponta a ponta, a programação não tinha só discursos de políticos.

Ao contrário, Lula gostava de ouvir as histórias de anônimos para saber como estava a vida naquele lugar para preparar seus planos de governo se um dia vencesse as eleições.

“A vida aqui tá boa, seu Lula, não falta comida em casa, mas o problema é meu marido, que bebe muito. Você não poderia falar com ele?”, pediu-lhe certa vez uma senhora em algum vilarejo da Caravana das Águas pela Amazônia.

Ninguém o chamava de senhor, era sempre uma relação de iguais. Foi assim que surgiu o “Lulinha paz e amor”, na campanha vitoriosa de 2002. Ao pé de um palanque no Recife, antes de subir para fazer seu discurso, um eleitor anônimo botou o braço nas suas costas, e o aconselhou:

“Lula, porque você não faz teus discursos como está conversando na boa aqui com a gente, em vez de ficar sempre bravo lá em cima, gritando, isso assusta as pessoas. Mais paz e amor, Lulinha”.

Durante o jantar, depois do comício, ficamos lembrando daquela conversa, e Lula passou a dar um tom mais ameno de contador de histórias em seus discursos e nos programas de televisão da campanha.

O que não podia faltar nas caravanas e comícios, que mais pareciam uma festa, era muita música, números de dança e alguma celebração religiosa — sempre atos cheios de simbolismo.

E foi com uma missa campal para dona Marisa, que faria 68 anos neste sábado (7), que se encerrou a vigília diante do sindicato, antes de Lula se apresentar à polícia nos termos acordados por seus advogados.

Assim, Lula foi mais uma vez protagonista até da sua própria prisão. Deixou a noiva esperando no altar da cadeia em Curitiba.

 

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