Jornalismo, fome e a vontade de comer

Foi engraçado assistir ao Jornal Nacional na semana passada e ouvir, na roda de conversa sobre os 50 anos de jornalismo, um dos profissionais comentar que, na ditadura, censuravam não só conteúdo e imagens, mas que também existiam palavras em que não se poderia sequer falar, uma delas era a palavra FOME.

Aí me lembrei dessa reportagem em que fé, medicina, clima, desemprego e caridade foram alguns dos temas abordados na série do Jornal Nacional que retratou a fome no Brasil, em 2001 (mais de 15 anos depois do fim da ditadura), e que está reproduzida abaixo.

Mas, não falou-se de políticas públicas, nem da falta delas. Pareceu que o país não tinha deputados, governadores e presidente, não que eles fossem os culpados (afinal, 500 anos de história que desenharam o cenário, como disse o repórter), mas existia um contexto político, que foi praticamente ignorado pela série de reportagens, que, inclusive, foi premiada por diferentes órgãos, como a ONU.

Agora, pergunto: e se esse cenário fosse uma realidade dos nossos dias atuais? Seria coisa criada pelo PT, herança de Lula, culpa de Dilma ou consequência da corrupção? Acertou quem respondeu “todas as alternativas”.

O (mal) exemplo fica aqui registrado sobre como a omissão de informações e/ou determinados enquadramentos jornalísticos configuram-se em representações da realidade conforme os óculos de determinadas ideologias e de bandeiras político-partidárias, que a gente nem percebe… É a vontade de comer do jornalismo tendencioso, que não mudou nada de 2001 pra cá. Aliás, não mudou nada de 1965 pra cá, né Rede Globo?

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