É São João! Mas, que festa é essa?

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O palco e o público de Joel Pinheiro, sanfoneiro mais velho de Vitória da Conquista

“Das noites tão brasileiras na fogueira. Sob o luar do sertão”

Ontem me bateu uma saudade dos meus tempos de menino. Dos tempos que a gente calçava os tênis novos para pisar nas brasas espalhadas pela rua e inaugurava um jeans com uns remendos – mesmo sem precisar – de tecido xadrez. O dia era repleto de cheiros: na manhã, a gente sentia os biscoitos no forno; pelo meio dia, os assados atraíam qualquer um para a cozinha; de tardezinha, o gengibre anunciava o quentão quase pronto; a noite era das fogueiras e dos foguetes e o cheiro da fumaça tomava conta… pronto, era São João!

A gente ouvia, o tempo todo, o som do trio mais famoso do Nordeste: era sanfona, zabumba e triângulo do início ao fim. Não importava o cantador e nem mesmo se tinha cantador. Esse foi o cenário mais próximo do São João da roça que eu vivenciei, mesmo na cidade, e do qual consigo me recordar com uma saudade chorona.

Como hoje as coisas andam tão distorcidas e os sentidos tão sem sentido, desrespeitando a memória e a cultura, me arrisco a ajudar os mais jovens a conhecer o que é (ou o que era para ser) o São João do Nordeste.

Lá no início, festejar São João era um ritual, de cunho religioso, em sinal de agradecimento ao santo que contribuíra com a colheita – cultura esta que chegou aqui com os portugueses. Uma festa essencialmente rural, portanto. A noite de São João era organizada principalmente pelos senhores de engenho – agora dá pra entender as mesas exageradamente fartas que dão para o desperdício.

Preparavam as casas e a comilança, recebiam os convidados e festejavam. Para animar, tinha um tocador de fole – nenhum profissional.  Era um agricultor mesmo que trocara na venda duas sacas de feijão e um quarto de leitoa por uma sanfona de oito baixos e então virava o tocador. A noite inteira, alternava umas notas e fazia o povo dançar no terreiro de chão batido – e aí estava feito o forrobodó (de onde vem a palavra forró).

Então, a cultura de celebrar o santo foi assumida pelas famílias que também dependiam da terra e da chuva, independente dos seus rendimentos. De festa familiar e rural, os festejos começaram a chegar à cidade quando as famílias, fugindo da seca, deixavam a roça em busca de oportunidades nos centros urbanos. Até 1950, o Brasil era um país de população, predominantemente, rural. Nas duas décadas seguintes, o jogo vira. E, no Nordeste, com a chegada da população rural às cidades, chega junto a manifestação de celebrar o São João.

Nas cidades, a festa foi transformada em festas da comunidade e, enfim, festas públicas, com a montagem de barracões pelas ruas, por exemplo. Até então, era mantida a tradição das portas abertas e da montagem dos banquetes juninos. Acendia-se a fogueira, arrumava o tocador e o forró virava a noite.

Hoje, a nossa tradição resiste. Muitas são as famílias que, em respeito à suas origens rurais e aos seus antecedentes, fazem questão de fazer (quase) tudo igual. Nas cidades de maior porte, a tradição sobrevive em esmorecimento. Nas pequenas cidades, ainda é mais forte, sobretudo na região mais alta do Nordeste. Para esta tradição não morrer, precisamos envolver as crianças e os jovens na nossa história, na nossa rica e tão bela cultura.

Nosso São João é a festa mais democrática e mais autêntica – e a que mais dialoga com a nossa identidade, sem dúvidas. Quer uma prova? O Forró Pé de Serra do Piripiri, São João da Prefeitura de Vitória da Conquista, que todo ano trazia atrações renomadas nacionalmente, foi montado, diante do cenário de crise e incertezas, com os forrozeiros da própria cidade. O resultado: a praça está cheia de gente toda noite!

Gente que faz questão de celebrar o São João. Gente que reconhece a nossa tradição. Gente que festeja verdadeiramente a nossa cultura. Ou seja, o que nos interessa não é o tocador do fole, só não pode é deixar o fole sem ser tocado.

É esse o São João que não pode morrer, que não pode acabar, que não pode deixar de ocupar as praças. Que esse não seja apenas um sonho do menino que tá lembrando daquele antigo São João.

Já, para os que desejam um São João com artistas de cachês fartos, faz-me um favor, viu… Dá pra fazer dezenas de festa de São João com o cachê de um Avião (mas esse já é assunto para um outro texto).

“Eita, São João dos meus sonhos. Eita, saudoso sertão”

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Com o homenageado e sua sanfona de oito baixos. Fotos: Helinho Sitos

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