Direto de 1950, uma crônica do Maracanazo

Reprodução da coluna de Odilon Braz no semanário Mundo Esportivo, de São Paulo, em sua edição de 21 de julho de 1950 – a primeira após o Maracanazo. A linguagem da época e os erros de tipografia são mantidos. Uma semana antes, às vésperas da decisão, o mesmo jornal havia publicado na capa uma chamada garrafal dizendo SEREMOS CAMPEÕES (acima havia um “empatando com o Uruguai”, mas estava tão pequeno que era como se não estivesse). Segue o texto:

maracanazo

DRAMA, TRAGEDIA E RIDICULO!

Reduzidas a po’ as mais lidimas esperanças – Flavio Costa, sinal dos tempos – Mau criterio na convocação – Mania dos “medalhões” – Inteferencia perniciosa – Volupia de superioridade – Ncompetencia – Asa negra, mandinga e pe’ de coelho – Mal necessario

Com a vitoria do Uruguai, encerrou-se a disputa do IV Campeonato Mundial de Futebol. Virou-se a ultima pagina do vigoroso drama que sacudiu a alma dos brasileiros e agora, passados os primeiros instantes de magua e decepção, podemos analisar, friamente, as causas que determinaram a dolorosa tragédia do futebol brasileiro. Não temos o proposito de desmerecer o triunfo uruguaio, que foi legitimo e indiscutível. Tão pouco move-nos o desejo de ferir este ou aquele. Visamos, antes de tudo, apontar os erros que presidiram os preparativos e a orientação do nosso quadro, e nisso não fazemos mais do que repetir os gritos de alerta que, patrioticamente, não nos cansamos de repetir enquanto havia tempo para reparos Em despretensioso retrospecto, apontaremos os dez erros que culminaram com a derrota do Brasil na Copa do Mundo. Dez erros que abalaram os alicerces do nosso futebol, reduzindo a pó as mais lidimas esperanças e abrindo, na alma nacional, feridas que jamais fecharão. Verá o leitor, frequentemente, o nome de Flavio Costa. Perdoe-nos por isso. Ele hoje é uma figura morta, e não desejamos ser seu coveiro. Ao menciona-lo vemo-lo apenas como instrumento da C. B. D., como um sinal dos tempos que felizmente já passaram.

DEZ ERROS CAPITAIS

Passamos, agora, à enumeração dos erros capitais:

1 – MAU CRITERIO NA CONVOCAÇÃO – Armado com a espada de dois gumes do absolutismo, Flavio Costa adotou mau critério na convocação dos jogadores, sem que a ninguem fosse dado discordar. Houve um desportista que pretendeu levantar sua voz contra erros gravíssimos, como a manutenção de Alfredo e dispensa de Pinga, mas foi logo taxado de derrotista, quinta-coluna e outros adjetivos desse genero, com que logo reagiam os amigos da onça do futebol nacional. Prestigiado, o técnico prosseguiu nos erros, dando preferencia a valores que haviam fracassado no sul-americano. Jogadores gastos, que jamais souberam verdadeiramente ganhar a ultima batalha, exceto no continental, nas circunstancias que todos sabem: com o Uruguai com uma equipe de amadores, a Argentina ausente e os demais concorrentes enfraquecidos.

2 – TEMPO PERDIDO NA CONCENTRAÇÃO: Outro erro que combatemos, desde o inicio, foi o tempo perdido na concentração, com passeios e distrações, quando o quadro precisava treinar assiduamente para consolidar-se. Deviamos ter procurado adextra-lo, fazendo-o jogar contra adversários duros, para evitar o desnivelamento de produção, como aconteceu. Fizemos uma campanha irregular e para culminar, passamos de uma vitoria de 6 a 1 a uma derrota.

3 – CRITERIO REGIONALISTA: O retardamento dos preparativos de conjunto, sempre o dissemos, visava na escolha dos valores que deveriam ficar. Apesar da manobra, ficou patente a tendencia do técnico em aproveitar elementos de sua confiança pessoal, relegando a plano secundario jogadores aptos, sempre que não pertenciam ao seu proprio circulo de confiança. Exemplos? Maneca em lugar de Claudio, Chico em lugar de Simão, Alfredo em lugar de Brandãozinho, Juvenal em lugar de Mauro, e assim por diante.

4 – MANIA DOS MEDALHÕES: Ninguem pode negar que houve, de sua parte absoluta ausencia de um plano de renovação, que possibilitasse maior dose de energia ao selecionado. Aliás, nesse ponto residiu a grande diferença entre o Brasil e o Uruguai, porquanto os campeões harmonizaram bem o espirito do novo e cheio de fibra Gigghia, Julio Pres e Matias Gonzalez com a experiência de veteranos como Varela, Tejera e Maspoli Nós preferimos uma seleção que alguém do Rio, com muita propriedade, batisou de “Scratch dos vovôs”

5 – TEIMOSIA: Este é um capitulo especial da historia. Flavio insistiu com homens que não estavam à altura da responsabilidade, em completo desprezo pela opinião publica, simplesmente porque é teimoso e não aceita sugestões. Por causa disso, revelou completa ausencia de habilidade para contornar as varias crises que surgiram e debilitaral moralmente o quadro. Se alguém, que não seja do seu convivio diario, pedir que não ponha Alfredo no gol, pode estar certo de que Alfredo será o goleiro. Flavio é do contra.

6 – ENDEUSAMENTO DOS NOSSOS CRAQUES: Deploravel a conduta da quase totalidade da imprensa carioca, que “a priori” considerou o onze uruguaio derrotado. Nas vesperas do jogo lemos manchetes dando os brasileiros como campeões do mundo, no mais condenavel desprezo ao valor do adverserio. Isso mexeu com os brios dos orientais e aumentou consideravelmente a responsabilidade de nosso quadro, o qual, por sua vez, não teve o preparo psicológico que seria de desejar naquela emergencia. Tão culpado quanto o técnico, entretanto, é a imprensa do Rio pelo absurdo comportamento que teve. Não poderia ter sido mais leviana nem mais inconsequente, na sua extrema falta de habilidade.

7 – INTERFERENCIA PERNICIOSA: Outro mal foi a interferencia de jornalistas na orientação do técnico. Não raro alguns deles instruiram diretamente o técnico sobre taticas a ser adotadas. Isso aconteceu mais de uma vez, provando de sobejo sua fraqueza, cuja cumplicidade, neste trabalho de puro regionalismo, acabou por prejudicar a ele proprio, depois de haver colocado à margem valores como Brandãozinho, Mauro e Pinga I, pelo simples fato de não serem do Rio e sob a estulta e esfarrapada desculpa de que Alfredo seria mais util porque, sendo medio, poderia jogar na zaga ou no ataque!

8 – VOLUPIA DE SUPERIORIDADE: Flavio foi à Europa conhecer ingleses, escoceses e espanhois. Voltou tremulo de medo, porque não confiava na sua seleção. Entretanto, depois que se viu nas finais, graças à fraqueza técnica do Mexico e da Suiça, e da boa partida contra a Iugoslavia, deixou-se invadir pelo complexo de superioridade, que maior corpo tomou após a vitória contra a Suecia. Desprezou, então, os uruguaios, e nem sequer mandou uma pessoa para ver o seu jogo contra os suecos. Não deu atenção a este detalhe, porque para ele eram favas contadas. No entanto, bem fresca na memoria de todos, estava a vitória do Uruguai, contra a nossa seleção, na Copa Rio Branco… cou aqui contra a Suiça, incorrendo no desagrado da torcida. Já passou o tempo da mandinga e dos mascotes de pé de coelho:

Perder é contingencia do esporte e grande é aquele que perde com dignidade, sem achincalhar o mérito dos vencedores. Reconhecemos a magnitude da vitoria dos uruguaios. Lamentamos apenas, que a derrota tenha ocorrido em circunstancias tão vergonhosas para nós, quando tinhamos todos os trunfos na mão. Esperamos, agora, que tenha inicio novo ciclo na vida do nosso futebol.Que os erros constituam, pelo menos uma lição para o futuro, para que amanhã possamos dizer, ao recordar essa fase negativa: Flavio Costa foi um mal necessário.

9 – INCOMPETENCIA: Como se não bastassem tantos feitos, todos a atestar desleixo, incompreensão e despeito. Flavio perdeu-se completamente na finalíssima, por falta de competencia para orientar o quadro. A seleção brasileira não teve, nesse dia, como já não tivera contra os suíços, qualquer orientação, jogando do principio ao fim sem um plano de defesa ou de ataque. Todos viram que o Uruguai estava bloqueando nosso trio atacante e impedindo a ação construtora de Bauer e Jair. Sim, todos viram, menos Flavio Costa, que nada fez para modificar a situação. Nem mesmo para ordenar maior cuidado na defesa, depois do gol de Friaça. Qualquer quadro, naquelas condições, não deixaria fugir o titulo. Nós deixamos. Porque somente Augusto e Juvenal tiveram noção do perigo. Todos os demais na defesa jogaram à vontade, sem um plano determinado. Nisto, Danilo e Bigode foram os maiores culpados, porque deixaram livre justamente o setor mais perigoso dos uruguaios. Flavio não disse uma palavra aos seus comandados no intervalo nem sequer instruiu os elementos da defesa para que empregassem a tatica de homem a homem.

10 – SUPERSTIÇÃO E FEITIÇO: E’ doloroso confessar, mas parecemos um povo tristemente atrasado. Parece incrível que ainda se acredite em superstição e feitiço, em pleno século XX. Tanto mais doloroso, porque gestos dessa natureza partem de dirigentes, os quais, em suas exortações, pedem aos craques e assistentes que adotem a mesma posição nos dias de vitória, ficando nos mesmos lugares e tomando as mesmas atitudes, para garantir o triunfo! Homens que não hesitam em apontar o Pacaembu’ como “asa negra” da seleção, só porque esta, mal orientada, mal formada e vergonhosamente apatica, claudi-

(neste ponto a crônica é interrompida por um anúncio de Ovidio Oswaldo Pandolfi, “medico e jornalista”, pedindo votos em sua campanha para deputado estadual. Por um erro de diagramação, as palavras finais da coluna não aparecem em nenhum outro ponto da página ou do jornal)

Texto disponibilizado no Impedimento.org

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