Como nossos pais

Por Maria Eduarda Carvalho e Mariana Kaoos

Terminado o espetáculo, rouco, Evandro Correia declarou: “Minha música está moderninha, foram canções antigas em novas versões. Isso é bacana, é importante, o sentimento do artista é um, do intérprete é outro”. Evandro, um dos homenageados da segunda edição do projeto Vértice, traduziu o que tinha acabado de acontecer. Quatro artistas homenageando quatro artistas. Uma mistura de sons e de gerações em novas melodias e antigas sensações.

De ítalo Silva, Elis Regina; de Jéssica Oliveira, Maria Bethânia; de Leo Leão, Caetano Veloso; e de Marlua Souza, seu pai, Evandro Correia. Um espetáculo intimista, violão e percussão suave, público sentado, risadas e conversas entre artistas e platéia. O Teatro Carlos Jeovah era mesmo o ambiente ideal para o feito.

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Após o show, o Conversa de Balcão conversou com os artistas que falaram melhor da proposta do Vértice e da relação com os artistas escolhidos.

Conversa de Balcão: Qual o critério de escolha dos artistas homenageados para essa segunda edição do Vértice? O que muda em relação ao primeiro?

Ítalo Silva: Quando criamos o primeiro Vértice, tínhamos como proposta inicial a formação de um show com canções que gostaríamos de cantar nos nossos repertórios, mas que tínhamos medo por uma questão de aceitação do público.  Pensando nisso, preferimos fazer um show mais aberto, com músicas que gostamos e que, de alguma maneira, nos identificamos.  Trazer coisas diferentes do que fazemos no dia a dia foi uma das prioridades. Por isso, escolhemos quatro artistas, Caetano, Bethânia, Elis e Evandro, que mais nos representam musicalmente.

Leo Leão: Na verdade, o Vértice não foi concebido como Vértice. Ele era apenas um show de quatro amigos. Quatro vozes. Quatro sentimentos. Queríamos levar a nossa amizade para o palco. Aí Marlua propôs esse nome e deu certo…

CB: Qual o conceito de Vértice? Por que esse nome?

Marlua: Bem, quando eu escolhi o Vértice, ele significa, dentro da geometria, um ponto em comum, onde tudo se encontra. Então, metaforicamente, isso também nos traduz. Na verdade, é a solução do problema, que era cantar o que a gente gosta. Nessa segunda edição do Vértice, optamos por apresentar ao público a linha que nos trouxe até aqui

CB: Hoje vocês interpretaram musicas de outros artistas. No entanto, muitas dessas músicas pertencem, por sua vez, a outros artistas como Belchior, Milton Nascimento. Vocês se consideram híbridos culturais?

Ítalo: Eu sou desde sempre. Eu não tenho escolha, porque eu tenho influência direta da Elis Regina, mas eu também não posso negar minhas outras raízes como Janis Joplin, Axl Rose, Edu Lobo e tantos outros nomes. Eu não sei por qual razão, talvez por eu ser intérprete, eu tenha tendência a ouvir mais intérpretes também. Mas, o fruto do meu trabalho é muito híbrido, inclusive as minhas composições. Quem as escuta, dificilmente consegue identificar uma só influência. Elas são muito múltiplas de caminhos e direções. E eu, particularmente, acho isso muito positivo. Temos uma cultura tão fantástica, temos acesso a tanta coisa bacana, então, por que se tanger a uma coisa só?

CB: Entre todos vocês, Jeh é a que demonstra mais se preocupar com as histórias da canções, bem como contá-las em show. De onde vem esse interesse, para além da interpretação?

Jéssica: Eu não faço questão de mostrar isso em público, mas, como eu gosto de estudar sobre as canções, acabo tendo prazer em falar disso para a platéia. Na canção de Caetano, “Você é linda”, eu não sabia o que significava Abaeté, então fui perguntar pra Marlua se ela sabia, e a partir disso, fui encontrando outras referências. E isso funciona mais ou menos dessa forma…

CB: Ainda no show, Ítalo e Leo fizeram, por diversas vezes, passinhos iguais. Isso foi combinado?

Ítalo: (Risos) Não foi combinado, não. Mas somos músicos populares e devemos nos expressar de acordo com isso, com as fontes de vanguarda que temos disponíveis. Existe um preconceito muito grande em relação a esses ritmos populares, como o arrocha. Então cabe a gente, cantores novos, quebrar esse preconceito e, por exemplo, arrochar ao som de Maria Bethânia.

CB: E como foi a escolha dos artistas? Qual a relação de cada um que motivou a escolha?

Ítalo: Eu não tive escolha (risos). Esse projeto era para ser totalmente  em homenagem a Elis Regina, então dada a dificuldade de interpretação das canções dela achamos melhor dividir o show em quatro blocos – por sermos quatro cantores – e em cada bloco homenagear um artista que fosse parte das nossas influências.  Eu tinha onze anos quando descobri Elis Regina, completamente sozinho e me identifiquei de imediato. Foi assustador, eu não entendia a letra [das canções], mas captava a energia e a primeira vez que vi Elis cantando, em vídeo, foi um divisor de águas. Eu nunca tinha visto uma pessoa fazer tão bem o uso da palavra e da entrega ao cantar, foi quando eu aprendi o que é interpretar.

CB: Caetano Veloso…

Leo Leão: Desde quando comecei a tocar, uma das canções que mais me marcaram foi “Menino do Rio”, a partir dessa música vieram outras e eu fui conhecendo o repertório de Caetano. Atualmente incorporo ao meu repertório umas cinco ou seis coisas dele, a gente vai se apegando…

CB: Maria Bethânia…

Jéssica: Escolhi Bethânia porque eu teria a oportunidade de interpretar quase todos os artistas que eu gostaria. Eu queria um monte de artistas e ela canta todos, Chico [Buarque], Tom [Jobim], então eu a escolhi para entrar em comunhão com todos.

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CB: E sobre o pai?

Marlua: Quando fizemos a escolha dos artistas eu tive dificuldade… Decidia que ia cantar Marisa, desistia, optava por Gal Costa, depois avisava a Jéssica que não queria mais. Era para escolher algo que nos representasse e eu não tenho um artista nacionalmente conhecido que me represente mais que ele [Evandro Correia]. Eu conheço a obra dele inteira, coisas das quais ele nem se recorda e quem faz maior parte de mim é ele.

CB: Marlua, depois de muito tempo você voltou a tocar violão e antes disso até pediu desculpas ao seu pai. Por que você escolheu “Baby” para voltar a tocar?

Marlua: Voltei a tocar com “Baby” por ser uma canção que eu já gostava e eu toquei para alguém que me contou a história dessa música. E eu senti vontade justamente por isso, foi um desafio. Eu achei bonito saber da história, é uma música que nem todo mundo entende e eu sentia que entendia e resolvi cantar. Na correria para não pedir a Jéssica para tirar mais uma música – até então eu não sabia que era uma canção simples – eu decidi tirar e ela ficou com o solo. Aí toquei…

Fotos de Lu Mota

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