Cantando na Chuva

Por Mariana Kaoos

Para chegar à praça Barão do Rio Branco na noite desse sábado, 21, foi preciso fazer a travessia. O caminho dessa vez não foi de pedras, mas sim com poças d’água nos passeios e rios sobre o asfalto das avenidas. Contudo, pros quem tem força, raça e gana sempre, a chuva foi só um aditivo, estabelecendo um contato entre céu e terra e levando ainda mais energia para os momentos que se sucederam ao longo da noite.

As pessoas, que se prepararam para encarar as dificuldades temporais, abusaram de botas bem como do guarda chuva, protegendo-se melhor do frio e das águas que o início do verão trouxe consigo. O público mesclou-se entre artistas locais, pessoas mais velhas e muitos universitários de fora, bem como de Vitória da Conquista. Letícia Gozzer, estudante de biologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, afirmou que a chuva não foi pretexto para não conferir a programação do Natal da Cidade. “Acho pouco provável que não chova todos esses dias, mas eu até gosto, gera um outro clima. Hoje eu vim para ver Milton Nascimento. Acredito que quem seja fã de verdade, não desanima apenas por um detalhe dos céus”, comenta.

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Tom Lemos e Pietro Leal, da Pirigulino Babilake

Abrindo a programação musical, o cantor Tom Lemos levou ao palco um show autoral que cedeu espaço para apenas três musicas de artistas já conhecidos: o grupo Novos Baianos, Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Introduzi canções deles na minha apresentação por acreditar que existe um diálogo com o que falo”. O show contou também com a participação de Pietro Leal, vocalista da banda Pirigulino Babilake, de Salvador. “Eu e Pietro temos mais de quarenta canções feitas juntos e é uma honra muito grande tê-lo hoje aqui comigo. A alegria de ser músico é poder estar nesse meio com os seus. É ser vértice e vórtice dessa energia que é movimentada pelo ato de tocar”, explica.

Tom Lemos ainda afirmou estar produzindo um disco para ser lançado agora em 2014. “Já estou com a proposta do meu disco Tom Lemos – Outros Encantos. Ele é autoral e deve sair até o fim do próximo ano”. Os presentes se mostraram receptivos ao som de Tom, que conduziu de maneira alegre e espontânea a sua apresentação

De acordo com o secretário de cultura do município, Gildelson Felício, a escolha das atrações não foi a toa: “O nosso propósito é poder misturar a qualidade dos artistas nacionais com os locais. Vitória da Conquista hoje se destaca em todo o estado por ser um dos maiores pólos de produção e qualidade artística musical. Então é mais que nossa obrigação ceder espaço para que esses músicos mostrem o seu trabalho e dialoguem com nomes vindos de fora. Ontem tivemos Marlua, Café com Blues e hoje temos Tom Lemos. Todos da terra e todos de altíssima qualidade”.

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Wagner Tiso e Victor Biglione

Em seguida, mostrando que de tudo se faz canção, foi a vez da dupla Victor Biglione e Wagner Tiso subir ao palco e mostrar o valor da música instrumental brasileira. Wagner, pianista erudito, fez parte do Clube de Esquina na década de 1970 e do Som Imaginário, banda que acompanhou Milton Nascimento por certo tempo. Já o argentino-carioca Victor Biglione é considerado um dos maiores guitarristas e violinistas da atualidade. Ele revela que o segredo está na sua guitarra. “Eu só toco com instrumentos da Washburn, que é uma fábrica americana, de Chicago. Eles começaram a produzir guitarras no século XIX. Eu sou patrocinado por eles desde 1990. E essas guitarras, elas são transcendentais. O som que ela proporciona é limpo, chega até o público de maneira diferente”, destaca ele.

Wagner e Victor impressionaram o público com interpretações de músicas consagradas como “Cravo e Canela”, do Clube da Esquina, e “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim como também melodias próprias. Mostrando que todo artista tem que ir onde o povo está, a música instrumental conseguiu alcançar plenamente o ouvido e a simpatia dos presentes.Victor disse também da importância dela: “acredito que a música instrumental seja fundamental em todos os aspectos. Um fato curioso é que é mais fácil trazê-la ao povo baiano do que para os paulistas ou cariocas. Parece que aqui todos assimilam melhor essa vertente musical”.

“E os óio se enche d’água que até a vista se atrapaia”.

Perto do fim da noite, por volta das 23 horas, foi anunciada a última atração do dia. Os músicos ajeitaram-se no melhores espaços, procurando as posições mais confortáveis para começarem a tocar. De uma flauta transversal, no lado esquerdo do palco, ecoou as primeiras notas da canção “Bola de Meia, Bola de Gude”. A platéia em alvoroço aplaudia calorosamente a chegada de um senhor de cabelos de trancinha, óculos de aviador e um sorriso no rosto.

No momento em que Milton Nascimento fez brotar os primeiros agudos extraídos de sua límpida voz, até o céu parou para reverenciá-lo. A chuva cessou, assim como o vento. O público, aglomerado perto da grade que separava o palco do povo, cantava tão alto e com tanto amor que as vozes unidas viraram um coro, música após música.

Bituca, como é conhecido pelos amigos mais íntimos, deu um obrigada de maneira bem tímida e tocou o show adiante. “Travessia”, “Coração de Estudante”, “Encontros e Despedidas”, “Cravo e Canela” e “Para Lennon e McCartney” foram algumas das canções que embalaram os corações e ouvidos dos presentes. Um dos pontos altos de sua apresentação, foi quando ele sentou-se numa cadeira, bebeu água numa caneca e começou a falar da música “Canção da América”, pedindo ao público que cantasse para ele ouvir. Todos prontamente atenderam ao pedido, deixando Milton em êxtase, quietinho na cadeira, apenas balançando os braços e sorrindo.

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“Resistindo na boca da noite um gosto de sol”

Em diversos momentos da sua carreira, a cantora Elis Regina gostava de afirmar que se Deus tivesse voz, certamente ela seria igual a de Milton Nascimento e que, portanto, a voz de Milton era a voz de Deus. Crenças a parte, o cantor arrepiou a todos quando interpretou “Clube de Esquina II”. As pessoas, paradas, olhavam embasbacadas, olhos arregalados, bocas abertas, para ele. Inertes, pareciam estar tendo uma visão do divino.

Do meio para o fim do show a chuva voltou a cair. Ao contrário do início da noite, dessa vez poucos levantaram o guarda chuva. Mesmo assim, alguns se opuseram, já que o acessório atrapalhava a visão, e tentaram lançar o coro “sem guarda-chuva”, o que acabou não pegando. De qualquer maneira, os pingos d’água pareceram só contribuir com aquele momento. Milton começou a cantar “Maria Maria” e, nessa hora, o show atingiu seu ponto máximo. Todos que estavam à frente do palco começaram a pular e cantar na chuva resumindo aquele espaço em água e vibração.

A noite acabou com gosto de quero mais. Bituca se despediu, o público, já saudoso, agradeceu. Foi possível ouvir burburinhos que, sem sombra de dúvidas, aquele foi o melhor show do Natal da Cidade. Sem sombra de dúvidas, para quem presenciou a vinda de Milton Nascimento a Conquista, a partir de agora, nada mais será como antes.

A programação desse domingo, 22, na Praça Barão do Rio Branco tem início às 19h30 com as apresentações de Alisson Menezes, Nenéu Liberalquino e Baile do Bem, com Margareth Menezes, Sandra de Sá e Toni Garrido, que juntos fazem um show com músicas de Jorge Ben.

Fotos: Arthur Garcia/Secom PMVC

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