“Avô de FHC propôs fuzilar a família real”

Em entrevista sobre o livro 1889, o jornalista Laurentino Gomes comenta as contradições que marcaram a troca do regime monárquico pelo republicano no país, fala do perfil aguerrido do brasileiro e, principalmente, do avô de Fernando Henrique Cardoso, alferes que propôs fuzilar a família real caso ela resistisse ao exílio – um perfil sanguinário distante do jeito manso do neto que seria presidente da República criada por ele.

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Alguns estudiosos entendem que o conceito de revolução implica mudanças profundas na sociedade e participação popular. Este foi o caso da nossa República?

Esse conceito de revolução é discutível. Acho que a gente nunca teve nenhuma revolução no Brasil, se tomar esses critérios. A Independência e a República, assim como a Revolução de 1930, foram movimentos de grupos restritos. O que o Brasil tem muito na sua história é golpe de Estado. Mas a gente pode dizer também que a campanha das Diretas Já, trinta anos atrás, foi uma revolução que pôs fim ao regime militar, provocou uma ruptura drástica e contou com o povo na rua. Acho que foi uma segunda Proclamação da República, uma revolução pacífica, a partir da qual estamos vivendo trinta anos ininterruptos de democracia.

Quando o senhor lançou 1822, depois do sucesso de 1808, disse que um livro (assim como o acontecimento que o pautava) era consequência do outro. 1889, e o acontecimento que marcou este ano, a Proclamação da República, também pode ser considerado consequência do projeto monárquico brasileiro, inaugurado em 1822?

Sim. Existe um Brasil inacabado após a Independência. Em razão da vinda da corte de Dom João VI para o Rio de Janeiro, o Brasil não enveredou por um projeto republicano como os países vizinhos da América Espanhola. O ambiente de corte que se criou no Rio e a Independência feita pelo herdeiro da Coroa Portuguesa levaram à instalação da monarquia e a um governo militarmente forte para sufocar movimentos separatistas, como a Revolução Pernambucana de 1817, a Confederação do Equador (1824) e a Revolução Farroupilha (1835-1845). Mas o ideal republicano existe e vai crescendo, como uma represa que enche, enche e uma hora estoura. É realmente uma mudança brusca de regime, mas eu diria que ela teve as suas raízes plantadas mais pela própria monarquia do que por uma vontade popular. Os republicanos faziam barulho, mas não tinham apelo. Em parte também pelos vícios do sistema eleitoral, que era bastante fraudulento, é verdade, mas o fato é que eles não conseguiam seduzir a opinião pública da época e se viabilizar como alternativa eleitoral no Império. Então, eles embarcam no golpe militar do marechal Deodoro. Eles insuflam o Exército, através dos jornais, contra o governo e acabam fazendo a troca de regime pela força. Mas essa troca é consequência direta de uma obra inacabada na época da Independência.

Falar nas revoltas que marcaram a história do país faz lembrar das manifestações ocorridas neste ano. Na sua opinião, o Brasil é um país com vocação para o protesto?

É, sim. É um grande engano essa ideia de que o brasileiro tem uma índole pacífica, tranquila, que aceita as mudanças políticas sem contestação. Essa é uma mitologia criada na época do Império, a ideia de que o Brasil tinha um pai, um soberano intelectual, bondoso e forte, que mantinha os conflitos sob controle, apaziguava os ânimos, fazia um encontro dos diversos interesses, facilitava a negociação das divergências. Não é à toa que o homem que mais se meteu em confusão na história do Brasil, o Duque de Caxias, que atuou na Cabanagem, na Balaiada, na Sabinada, na Revolução Farroupilha e na Guerra do Paraguai, passa para a história com o título de “O Pacificador”. Ele reflete essa mitologia do Império, essa versão oficial da história que diz que a gente consegue resolver tudo no consenso. A história real do Brasil é cheia de sangue, sofrimento e milhares e milhares de vítimas.

Os republicanos tinham influência dos Estados Unidos (a bandeira do grupo era parecida com a americana e o Brasil foi chamado de Estados Unidos do Brasil na primeira Constituição republicana), mas também da França (a Marselhesa era tocada pelos militares, que admiravam Auguste Comte). Que país influenciou mais os republicanos brasileiros?

Eram de fato dois faróis que fascinavam e meio que ofuscavam os republicanos no século XIX. De um lado, há o modelo da república liberal dos EUA, que tinha apelo entre os paulistas, os intelectuais e os fazendeiros de café do oeste, como Campos Salles, Prudente de Morais e Bernardino de Campos, além de uma parte dos intelectuais do Rio. Mas no balanço geral a França exerce influência maior, pela forte presença do positivismo de Auguste Comte entre os militares, que defendiam uma ditadura como forma de consolidar a República no Brasil. E uma parte mais radical da intelectualidade era fascinada pelo modelo revolucionário da república francesa. O advogado Silva Jardim, por exemplo, queria fuzilar a família imperial.

O alferes Joaquim Inácio Batista Cardoso, avô do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, também defende que a família real seja fuzilada, caso resista ao exílio. Você conversou com FHC sobre o caso?

Essa história é maravilhosa, o avô sanguinário do Fernando Henrique (risos). Não falei com ele sobre isso, mas acho que ele vai se surpreender com essa passagem. E com aquela em que o bisavô envia um telegrama para o filho, o Joaquim Inácio, reclamando da república que ele ajudou a fundar. É muito engraçado. (De Goiás, o Capitão Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, bisavô de FHC, escreve um telegrama ao filho no Rio, caçoando da república recém-proclamada: “Vocês fizeram a república que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado”.)

O que explica a adesão tão grande dos militares ao pensamento de Auguste Comte e a durabilidade dessa parceria, que também tocou Vargas e teve ecos no golpe de 1964?

O Brasil era e continua sendo grande, instável e com muitas diferenças regionais, além de discrepâncias sociais, pobreza, analfabetismo, latifúndio. Por isso, sempre houve medo de que o projeto de construção nacional pudesse descambar numa guerra civil ou étnica. Desde a Colônia, a ideia era manter primeiro a ordem para depois ter progresso. Sem ordem, não há progresso. E os militares são os maiores avalistas dessa ideia. Toda vez que a integração nacional se viu ameaçada por revoltas ou rebeliões, foi o Exército que entrou em campo para impor a ordem e impedir a fragmentação territorial. Então, não é por acaso que o positivismo de Auguste Comte, que defendia uma ditadura republicana, ou seja, o governo de uma pequena elite capaz de manter a ordem e obter o progresso, seduz tanto os militares. Quanto a Getúlio, ele era filho do Manoel Vargas, que era aliado do Júlio de Castilhos, um dos republicanos mais fervorosos do Rio Grande do Sul, província onde o positivismo era forte. Ele foi criado na escola positivista. Já os militares de 1964 eram herdeiros desse grupo.

Que peso a Guerra do Paraguai teve na Proclamação da República? O fortalecimento do Exército no conflito foi mais decisivo que o medo que um Terceiro Reinado, com uma rainha carola e um rei estrangeiro, inspirava na população e que a perda de apoio dos fazendeiros do Vale do Paraíba ao fim da escravidão? Ou a República foi uma somatória de tudo isso?

Uma coisa que me surpreendeu na pesquisa para esse livro foi perceber como o Império lançou as sementes para a própria destruição. A República chega menos pelo vigor do movimento republicano que pela fragilidade do Império. Dom Pedro II era claramente um monarca de alma republicana. Nas cartas que manda para a condessa de Barral (amante apontada como a grande paixão da vida do imperador), ele diz que gostaria que o Brasil fosse uma República, que ele preferia ser presidente a monarca. E o Império é de fato o período em que os brasileiros gozam da maior liberdade de expressão experimentada na história – com exceção do presente – e isso serve de combustível para o movimento republicano. Mas havia de fato o problema do Terceiro Reinado. Dom Pedro no fundo sabia que a possibilidade de a sua filha, uma mulher casada com um príncipe estrangeiro, o Conde d’Eu , assumir o trono era muito remota em um país ainda tão conservador e machista. Para piorar, você tem a abolição da escravatura, que tira o pé de apoio do Império, fixado na aristocracia rural do Vale do Paraíba, e a inabilidade de o governo imperial lidar com as demandas militares. Isso também explica por que ninguém se levantou para defender a monarquia, em novembro de 1889.

A decisão de Dom Pedro II de nomear Silveira Martins, rival de Deodoro, como chefe do gabinete de ministros foi uma das bobagens feitas pelo monarca. Ele também deu combustível ao republicanismo ao insistir em nomear um gabinete de ministros de conservadores, em 1868, irritando os liberais, que então dominavam a Câmara dos Deputados. Apesar disso, foi tido como um grande estadista. Ele era de fato hábil na política?

Ele teve habilidade de manter o Império integrado por quase meio século. Mas tinha contradições. Era considerado um dos soberanos mais letrados do século XIX e governava um país de analfabetos. Era um soberano liberal e tolerante, mas seu país tinha escravos. Ele sonhava com um Brasil moderno, integrado à comunidade científica internacional, mas era um país dominado pelo latifúndio. Ele representava um país de fachada. E quando ele fica velho, doente, incapaz de levar adiante essa farsa, a fachada desmorona e o Brasil real se impõe.

O que explica a amizade entre D. Pedro II e o escritor Victor Hugo, personagens tão opostos politicamente?

Essa história é interessante. Dom Pedro II vai a Paris e pede para Victor Hugo, de quem era fã, visitá-lo no hotel. Mas Hugo, que era a face mais importante do movimento republicano, não queria nada com o imperador do Brasil e manda dizer que não visita ninguém. Então D. Pedro vai até a casa do escritor e bate na porta dele, que fica constrangido de mandá-lo embora. Eles passam horas conversando e se tornam amigos até o fim da vida. É uma amizade que transcende as fronteiras ideológicas e acontece no campo puramente intelectual.

Ainda sobre as amizades de Dom Pedro II: o texto na contracapa de 1889 diz que ele e o marechal Deodoro da Fonseca eram amigos. Eles eram próximos, mesmo?

Não chegavam a ser íntimos, mas havia uma admiração. Deodoro disse que gostaria de carregar as alças do caixão do imperador. Ele se considerava realmente um súdito do imperador, o que torna a atitude do marechal, no dia 15 de novembro de 1889, ainda mais estranha. Um ano antes, ele escrevia cartas para o sobrinho Clodoaldo, no Rio Grande do Sul, dizendo que República e desgraça eram a mesma coisa. Ele era claramente um monarquista. Mas era também um homem vaidoso e magoado. Um copo de mágoa transbordado. Ele se considerava desprestigiado pelo governo imperial, achava que o Exército era desconsiderado nos seus méritos. Acaba dando o golpe republicano mais por mágoa pessoal que por convicção política.

Entre as mágoas pessoais do marechal, está a rivalidade com o fazendeiro gaúcho Gaspar da Silveira Martins, para quem ele havia perdido a baronesa do Triunfo.

É, tem uma história de alcova que ajuda a explicar a decisão do Deodoro na madrugada de 16 de novembro. Porque ele havia destituído o ministério do visconde de Ouro Preto, mas não havia proclamado a República até ali, até saber que Dom Pedro II havia escolhido Silveira Martins para chefiar um novo ministério.

Foi também pela vaidade de Deodoro que o professor Benjamin Constant, mentor político dos alunos na escola militar, foi ofuscado em seu papel de herói republicano?

O Benjamin Constant é um personagem surpreendente. Não dá para entender o processo de troca de regime sem estudar o papel do Benjamin Constant. Ele foi o mentor intelectual daquela mocidade militar que fez o golpe contra o Império em novembro de 1889. Mas é um homem com dificuldades pessoais enormes, perdeu o pai cedo e tentou se suicidar quando adolescente, venceu diversos concursos públicos, mas perdeu a vaga por não ter padrinho, e vivia preocupado em desmentir a fama de medroso na Guerra do Paraguai. Na República, ele foi relegado a um papel secundário porque os militares tentam dar ao marechal Deodoro, que nem era republicano, o papel de pai do regime. Todos querem agradar o chefe novo. Na constituinte de 1891, por uma proposta do jornalista Quintino Bocaiúva, o Benjamin Constant seria aclamado o fundador da República, mas o Deodoro fica ensandecido com isso, e essa é uma das razões pelas quais ele fecha o Congresso e mais tarde renuncia.

A maçonaria teve papel importante em 1822 e 1889. O senhor sabe dizer se ela ainda é relevante hoje na política nacional?

Não é. Hoje existem cerca de 150 000 maçons no Brasil, eles estão profundamente divididos e já não têm nem sombra do papel político que desempenharam no passado. Quando havia de fato uma razão para isso. Na época da Independência, não existiam partidos políticos capazes de organizar, de canalizar o debate a respeito das coisas que precisavam ser decididos naquele momento. E isso acontecia nas lojas maçônicas. A maçonaria, tanto como a Igreja Católica, funcionou como um proto-partido. Na proclamação da República, a maçonaria esteve presente, mas já não tinha a importância que possuía na Independência. Ela vai aos poucos cedendo lugar a outras instituições.

O senhor encerra o livro dizendo que o desafio de que os brasileiros se encarregam hoje é a incorporação do povo na construção do seu futuro. Na sua opinião, o país tem se saído bem?

Considerando a nossa história, sim. Porque a democracia é recente no Brasil, o país está aprendendo agora a exercê-la. A democracia é difícil, é um pacto entre milhões e milhões com interesses divergentes, rumo ao futuro. E o Brasil sempre tentou atalhar caminho na sua construção pela via autoritária. Sempre houve a figura de um homem forte que se arrogava o papel de tutelar os demais, como se a sociedade fosse incapaz de se governar. Nós ainda discutimos as regras do jogo republicano, o papel do Congresso, do Judiciário. Já uma democracia madura, como a dos Estados Unidos, discute políticas públicas. A nossa tarefa atual é concluir o desafio de construir o Estado republicano brasileiro.

(Do site da Veja – por Maria Carolina Maia)

 

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O LIVRO

1889
Laurentino Gomes
Globo Editora
416 páginas
R$ 32,80 (na Saraiva)

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